sábado, 23 de junho de 2012

Leitura sob vela

Victor Rocha Nascimento

Já era tarde quando ele começou a esticar os tornozelos lentamente até o salão principal. Filho de homem importante e frio, o garoto buscava diversão na quebra de regras. Momento propício? A madrugada.  Uma aventura? Invadir a biblioteca particular do pai. Um verdadeiro recanto de relíquias, com edições raríssimas de escritores de cada tempo classificado. Já não parecia ser possível identificar valor para o conjunto de obras ali guardadas... O acervo era de colocar inveja em algumas seções da irmã de Alexandria.
O menino, embora muito novo, beirando de perto os oito anos, era um exímio leitor. Seu pai o colocava em regime de estudo aplicado com os melhores mestres da Europa e costumava exibir seus dotes invocando-o para declamar trechos complicados de livros pesados durante jantares importantes em sua mansão. Esta prática ele cumpria com afinco, apesar de odiar no interior da alma. Já as leituras proibidas da madrugada eram doces, leves... Com gosto de subversão.
O menino deslizou a porta com cautela e entrou na biblioteca portando uma vela de calibre baixo. Caminhou por boa parte da sua extensão e decidiu, por impulso, parar. Virou-se para a esquerda e sentiu como um convite a sacar uma das obras fixadas na estante. Ele teve alguma dificuldade, mas alcançou pela ponta dos dedos um bolo de páginas amareladas envoltas por uma capa dura e suja, amarrada, que parecia feita de algum couro mal escolhido. O garoto arrastou o livro até uma das mesas do ambiente, posicionou seu castiçal e se preparou para a leitura.
 Na primeira página, uma marca indicava a universidade de Miskatonic em uma reprodução falha, de tinta fraca. A criança iniciava sua prática com alguma empolgação curiosamente mórbida. Dedilhou cuidadosamente as primeiras folhas e sentiu a ponta dos dedos levemente quentes. Nunca havia sentido emoção parecida em suas aventuras noturnas, mas era boa. Pelo menos no início.
Ele juntava as palavras reconhecendo pouco do que lia. Dentro da sua cabeça os escritos reverberavam como mantras. Mesmo com sua cultura elevada para a idade, o contexto daquela obra era de outro nível. Enquanto forçava a compreensão, zumbidos como de insetos soavam pelo seu corpo com frequência baixa, mas incômoda. Uma leve tontura o fez piscar pesado. Levado por uma vontade avassaladora, o jovem sofria com um surto tentador de ignorar a estranha sensação para prosseguir com a leitura.
As palavras de cunho inclusive obsceno o assustavam, mas pareciam alimentar algo que sua pouca idade ainda não revelara. Aos poucos ele se deparava com termos estranhos ao seu idioma. Al-Hazred, Yog-Sothoth... Deuses? Caminhos? Ele estava diante de uma cultura fantástica que parecia consumir sua sanidade.
Após mais de uma hora em fixação, sensações de náusea e melancolia tomavam a criança.  Sentiu o jantar subir pelo esôfago em sobressalto e imediatamente levou os dedos a boca. Um líquido estranho respingou, mas a visão turva não permitiu perceber a coloração negra manchando a leitura. Sua energia parecia drenada, mas ele mantinha um esforço sobre-humano para seguir lendo. Por vezes, assustava-se com sussurros distantes de vozes rasgadas e palavras desconhecidas. Ele sabia que algo o dominava, o comprimia por todos os lados. Tremia ao pensar escutar o pai clamando pelos ancestrais. Curvava-se sobre a mesa ao sentir que seu falecido avô sussurrava gemidos de uma só vez em suas duas orelhas. Enquanto lia, não era mais sua própria mente que narrava a informação disposta no amarelo das folhas.
Agora, já estava apavorado. Entendera em um susto que havia sido preso num vício estranho. Sua pouca maturidade e mente frágil o fizeram presa fácil do conteúdo inebriante do livro. O que ele antes não compreendia, já parecia fazer parte de sua essência.
De olhos esbugalhados, mas com vista turva e sem conseguir emitir qualquer som, o corpo da criança formigava, gelava e parecia flutuar. No momento em que seu desespero gritava por ajuda, não havia reação do corpo. O ar acabou. Notava sua própria pele derreter. Estava certo de já poder tocar a morte e lamentava não ter forças para alertar a ninguém sobre sua frágil consciência.
Em um segundo instante, dos quais lhe cortavam agora feito eternidade, notou que seu corpo seguia intacto, fixo feito pedra. Algo estava extremamente errado, mas nada que pudesse ser físico. Enquanto ouvia sussurros com informações doloridas e segredos ardentes sobre vida, morte e universo, aparentava poder presenciar duas realidades com uma só mirada. Ele sabia que estava acompanhado de algo tão forte que, antes, jamais poderia supor existir. Eis que numa brasa de sangue aos olhos, braços gelados lhe cobriram o corpo e sua consciência cerrou.

O quente da manhã já tocava a grama do pátio quando o pai saiu à procura do filho. Irritado, queria certificar-se de que a criança estava em ordem para iniciar o dia. Quando a descobriu, sentada perene à porta da mansão, por pouco não notou que se tratava de outro no que já era apenas a carcaça do jovem. O aspecto seco, enrugado e pálido da pele, além do obscuro e quebradiço no rosto, pareceu menos urgente do que a necessidade da prontidão pela rotina. O tempo passava e, doença que fosse, teria outra hora para ser tratada.
Líder, austero, o homem apenas ordenou que o filho tomasse o rumo programado no padrão dos meses. Foi então que, por instantes, seus olhos cruzaram e um amarelo felino ardeu do garoto para o pai. Não durou mais que um instante, mas custou uma intensidade atemporal. Quietos, como de costume, ambos entraram como soldados.
Ao selar da porta, algo se deu. Um silêncio sepulcral calou até os animais. Segundos depois, estalos trincados cortaram o ar. Um jogo de luzes vermelhas esticou-se pelas janelas do casarão. Os empregados, aos berros, tentavam anunciar ao mundo o que de terrível tomava aquela mansão. Mesmo de longe se podia ouvir o roer de unhas no portão de madeira cara. Um som extremamente grave ecoou no saguão enquanto uma chama fétida lambia as estruturas da casa estampando terríveis silhuetas negras. Os robustos jardineiros e valets não tiveram coragem de se aproximar. Estava claro que não poderiam fazer nada. Aos poucos a grama secava, as paredes brancas se convertiam em carvão. Com a derrocada dos empregados sobreviventes, todos que tinham algum juízo deixaram para trás aquela terra amaldiçoada.

Sabe-se que uma parte da casa permanece intacta. Na biblioteca, alguns livros raríssimos mantiveram-se, milagrosamente. Mesmo assim, não houve valente que se dispusesse a explorar as riquezas deixadas pela mansão. Dizem que, entre eles, esconde-se uma edição do livro dos mortos esperando para ser descoberta.
 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mergulhado. Do Maravilhoso Mundo dos Sonhos, as Sementes Chamam..

Victor Rocha Nascimento

O que pode ser a loucura se não tudo que há de mais puro no homem?
Quando finca o sentimento no pé da boca, algo mais incomoda no canto esquerdo da face. O sangue acumula e solta, fazendo saltar as veias como se eletricidade em campos de cobre. Quando vira as pelotas para luz, arde mais do que lembrava. Estava preso, exaltado, exausto e trancado.
Siga sua sina saboreando o sumo saldável do suor salgado, sentindo o sumo e o sal, sentindo a sopa selada na língua e o bafo amargo colado. Acorde. Não deixe o pobre lodo dominar seu corpo. Vá ver o sol, por mais quente e ardido que possa ser o lado de fora.
Tão pálido, tão vil, melado no recanto da noite que não pensou deixar um dia terminar. Volta para o soro e segue o sonho vibrando e vibrante nas entranhas, viciando num gozo amargo de paixão narcisa. É violado pelo próprio ser e deixa que o mundo se vá para ter o seu e apenas seu. Chega perto da morte, mas falta coragem assim como medo. Prefere sonhar.
Que endureça o sebo no estofado, nada importa quando não se está mais aqui. Nada melhor do que perder a noção do poder divino e viver ao bel do próprio. Agora já são dois lados de fora e nenhum interessa. A história continua como procurava e ninguém parece se importar.
O lugar é calmo, escuro e um som constante, agudo, corta o mundo ao fundo. Não há cheiro e a cor é pouca. O belo sorriso da jovem é transparente. As situações pretéritas recorrem como lágrimas, escorridas em pelo. O absurdo faz sentido e acomoda. O sentimento é de choro feliz. Dura mais do que poderia e acaba em rompante, mas convida ao matrimonium. O tom é expressionista e os cantos desbotam. Não há conforto maior do que a loucura. Não há respeito maior do que em nossa casa.


Quanto mais corre... corre. escorre, colhe... corre
Mais profundo está.
A caverna já é visível e o agudo irrita os passos, confunde o mundo. ainda assim, agrada.
Quem será que vai econtrar?

domingo, 22 de janeiro de 2012

Entre culhões e bifurcações. Os jeitos que aprendi.

Victor Rocha Nascimento

Como ser forte, meu caro?

Por um caminho de escolhas que eu rabisquei
Fiz pensar que a dor podia me salvar
E um coração de pedras velhas que eu fatiei
me dava forças para continuar
Marcava os punhos da saliva amarga que babei
Acertava flechas contra o peito para reforçar
O sentimento atrofiava pela minha própria lei
E um fio de sangue me impedia de enchergar

Como se tornar um homem forte? Perguntava.
Cada vez mais forte, era cobrado. Quer engolir o mundo? Tenha culhões.
A cada dia entendia sem ouvir meus próprios gritos de liberdade
A força que tinha era séria, turra, madura e sem vontade.
Quando precisava, quando me chamava, era de outra fonte que brotava.
Sempre fui mais forte, mais do que tento, mais do que posso, quando precisam.

Por uma sorte louca que eu nem sempre busquei
Gastava as pernas para compensar
E a ideia torta que tanto sonhei
Me esmagava os sonhos antes de firmar

Dizia que dois tipos de força existem. Aquela dos que não sentem, e a dos que sentem demasiadamente. É fácil escolher, difícil é segurar.
Enquanto a primeira torna lixo tudo que é outro e supre toda fraqueza,
a segunda protege os outros e é cheia.

Existem sempre as duas, por natureza, e ambas contagiam. Porém uma se exercita, se prepara e melhora. A outra é como uma força oculta que por vezes aflora.

Difícil não é ser forte. Difícil é ser. E não existe força sem um abraço apertado ou palavra de carinho e incentivo vez ou outra. Se na solidão também existe força, é porque a luta, no mais profundo, é frio.

Memórias de Celular

Victor Rocha Nascimento

Um estupro mental lhe rabiscou os sentidos quando ela coroou o sentido real do que havia dito. Sem grandes revelações, ao passo de que mesmo fazendo certo não vira novela, a vida é um cubo escuro, sem graça, e a força que fazemos por um pouco de sombra banaliza ainda mais a senda partida.
Sem grandes revelações, sem grandes fins, sem roteiro ou predestinação, a natureza selvagem, mórbida, covarde e original da realidade fede a coisa nova.

 

Pobre Lazaro, que escrevia seus contos devastados e insinuantes na precária memória da agenda de mensagens de um celular. Um dia, ao ser roubado, perdeu seu encanto de poema junto com a filmadora, internet e telefone. Tempos depois, por sorte ou acaso, resgatou. Ao publicar então uma tão sonhada obra, que aos mais, lhe creditaria prémios dos melhores na boa literatura e um renome sonhado no popular, perdeu do nome a autoria num engano. Sua poesia, tão forte e tão viva, já era há muito conhecida. Tinha antes sido funk.


-Olha só que bonitinho! Um peixe saltando d'água!
-Quando salta assim é sinal de agonia, de que está para morrer.
-Nada mais belo do que ver a dor do outro. Pena que de dentro ela vicia e pode até matar.


Se um olho fecha, acaba com um mundo que continua vivo no olho de lá.
Quando se esfrega, embaralha em miúdos. São cores difusas sem muito para dar.
Quando aperta, esmaga o segundo, mas o silêncio ainda custa a chegar.


Estar sozinho só para sentir o ar. Refletir. Buscar num cantinho alguma paz. Sentir, tocar, conhecer, amar. Viver, ponderar, Crescer, Buscar. Fuder, limpar. Cair, gozar. Pensar. Pensar. Ir até. Voltar. Melhorar. Compartilhar. Encontrar, combinar, marcar, focar, estudar. Perder. E a vida já não dá mais tempo.


Há de ser puta, a puta, por completo. Já a santa há de ser santa, menos na cama, onde deve ser ingênua, nervosa, puta e gostosa. Deve ser gosmenta. Foguenta e fogosa. Deve ser só para um. Ser rara, impetuosa e sem passado. Deve ser sonho, predestinada. Deve se descobrir e concluir. Apenas de um. Se for pelo contrário, melhor nem ser, ou será de otário, pois é como chamam o homem que vai ter.


Se julgo demais as pessoas é por terem me deixado por muito tempo só, acostumado em um mundo que é meu e só meu.


É que quando estou para sentir, apenas curto os sentimentos, sejam quais forem. É sempre bom terem em si o sumo da vida e saber do que é feito.


 

Como contava o velho Sebastião, só cabra dos mais machos da terra fincada em vida e dos olhos esbugalhados para poder encarar o tal do outro, lá. A história, que na mentira pregava medo nos moleques atentados, vai ganhando força juntamente na medida em que vai virando verdade.
Era uma noite escura, de uivo de lobo e riso de besta, quando a criatura foi vista pela primeira vez.

E o mundo vai acabar

Victor Rocha Nascimento

Eles eram só mais um grupo de amigos. Desses, que de criança fazem festa, se apresentam e brigando grudam. Na adolescência viram hippies, roqueiros, nerds, blogueiros, caricatos e misturados, mas fechados e inseparáveis. Abertos e sinceros, assim como felizes, somente entre si. De jovens, recolhem do bolso os caquinhos de tempo para aproveitar nos bares, bebendo, petiscando e jogando todo o assunto perdido na mesa, como num poker, tentando sentir calor velho na madrugada apertada, querendo saber que ele ainda existe.

Até que um dia, após a glória de serem, deixaram. é normal, todos sabiam, esperavam, mas preferiam não ver para tornar eterna sua juventude anil. E foi, por mais que tenha passado. foi a melhor possível, por mais que possa ter sido igual, por mais que tenham sido tristes, sofridos, idiotas, os momentos foram todos igualmente perfeitos. Passaram.

Cada vez mais distantes, foram trapaceados pelo tempo e alfinetados por tramoias de amizades banais, fracas, coleguismos. Mesmo sem querer, por parte alguma, todos ficam ocupados, fechados agora em si e no futuro. Todos só sonham, lembram e sentem. por sorte, ainda estão todos em todos. E das fotos antigas ficam as fotos. Das cartas, o cheiro saiu, mas sentimento segue gravado e colorido. Se em alguns anos perguntarem por eles, por aquelas pessoas, não se sabe por que porta a saudade vai tentar explicar e jamais vai ser suficiente.

E coisa que arranha, amassa, transporta, transborda e incomoda... Mesmo assim, faz a gente lembrar mais da gente. Faz se encontrar, se reviver, voltar a amar.

Mas antes que passe e possa e termine, no texto deixo continuar, exatamente da forma encantada que sobrevivem nos corações de cada um. Não há lugar melhor para serem eternos que na lembrança, no carinho, e na grafia. Pois, se já ficou claro o tipo de amigos, a história segue, sem tremer ou pular parte nem voltar. Deixa que ela ainda é.

Eis que eram amigos...

.
..
...

E o mundo vai acabar.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A esqueleta requebrando outra vez para moi


Pois que veio a mim a Morte, cheia daquela ginga, rebolando sedutora, bafo de canela, e mandou o velho papo, desse jeito mesmo, de quem não têm história para contar, mas pelo tempo de convívio, se acha amigo a ponto de resmungar qualquer coisa sem sentido só para entrar na treta.

"E aí? É hoje ou não é?"

Ora, mas olha só que abuso. Coisa tosca. Quem manda dar intimidade? Agora vem ela com sua foice roxa-brilhante, cheia de guizos saculejantes querendo se achegar feito parente distante que quer empréstimo de pagamento dispensável. Respondi que não estava para papo e que hoje era dia de cantar, viver e, quem sabe, arriscar uns passinhos de baile...

A encapuzada nem ficou uma fera, já está acostumada, como fazem os assessores que ligam pro jornal querendo atenção, implorando para vender pauta e escutando mentiras óbvias enquanto espirram amor e doçura. Ela sabe que nunca pode mandar, depende de mim para seu trabalho sair bonito na folha. Mas se não chegou a hora em definitivo, chamo a coitada só por mania de prosear mesmo... Vai entender. Mania. Sabe mania?

É prosa de cá, prosa de lá... Vez ou outra rola um flerte, uma bicada... A gente se entende, mas nunca se toca. Ela lá, no trono de ossos em seda e linho mostarda, e eu aqui, na minha confortável sarjeta, que é de onde saco as ideias infames para montar meu reconhecimento da vida. Também quando ando pela madrugada, ela me segue, resmunga, mas aí conto com outros fantasmas mais interessantes para entreter.

Pois que, dessa vez, dessa vez que ela me veio, eu estava com saudade, mesmo sem amor nem rancor, ficou uma saudade da sabedoria mórbida que ela costumava me trazer. Com sua pita molhada, me encarava com um sorriso dois terços e eu, seguro, sorri inteiro.

Argumentei uns favores, comentei uns beijos, lembrei do passado e, juntos, concluímos que não era necessário nem um recomeço. Basta só continuar. Seguir esse caminho é bom, é certo, e é demais. Aí que ela se danou de nervoso por ter que concordar e abafar o próprio gozo que quase aprontava de vazar. Ora se havia outra resposta, nem a praga da peste conseguia encontrar.

Com bochechas rosadas, a esquelética foi saindo de fininho, envergonhada, piana, pensando que já não sabia me agradar. Eu deixei. A morte é bem madura, sabe se virar e não vai cair em nenhuma tristeza tamanha, faça favor... Nada de drama, senhora. Segui comendo meus bons livros e esperando que migalhas do passado alimentem o que sou pra mais tarde eu saber como chegar.

Ela me espera. Sempre espera. É bom que a gente troque esses encontros para não ter susto depois. Na hora que for, é só levar. Nós ainda podemos ir batucando um samba, afinados como somos em companhia. Por enquanto, deixa que ela me inspira, me toca e me lapida com seu papo de cobra morta, sobrando um assovio de quem avisa.



Victor Rocha Nascimento

terça-feira, 10 de maio de 2011

Infiltrado em tornar / A Morena e o bufão parte II

Victor Rocha Nascimento

O que era paz, fervente afogou. O que parecia fugaz, tomou forma e sabor. O que era vazio, encheu-se de amor. Infiltrado em tornar o tornado faz girar o que já era para, outra vez, cantar a beleza dela. Jamais cansa de sonhar.

Tudo culpa daquela Morena, que batia as canelas e de sorriso no vento misturava os sonhos de toda gente da cidade grande. Faz sentido que com tanto encanto, o pobre mulambo tenha sucumbido feito manteiga no Rio, feito dormideira assustada, feito pele no frio, feito feijão em feijoada.

Agora passa hora, morre dia e o encanto não passa. Ficou o olhar acanhado e o riso sem graça. Ficou o sorriso apertado e o coração em migalha. Agora o país é dela e o futuro faz piraça. Ficou até pozuda, mas com jeitinho disfarça.

Agora a Morena é alegria e o sol vicia pro dia ser dela. Se a cama está fria a perna se agita e pula a janela, faz novela, ensaia uma trela, convida pra guerra. Se o tempo é problema e o cheiro envenena, se droga na certa. E ele, que é puro e sujo, molda em em favor. Volta ao que era para ter mais valor.

Quem diria que mesmo longe, chama, faz charme, é presente, finca a carne, é corrente no sangue e milagre. Por mais sujo o profeta se benze e firma a verdade de um início tortuoso e é saforil. Por mais medroso ele mesmo se entende e crava o futuro como quem mente, só para iludir.

E lá fica a Morena, que é só graça, toda animada, esperando para ver. Ela corre, sacode, chora, morde, se envolve, namora, concorda, por hora, por outra explode. Rainha que finta, culpada da loucura na mente dos homens inspirados por ela mesma no amor. Irrita, imita, corre da dor.

Sem notar, invade. Pra brincar, faz arte. O mundo na sua vontade. Se longe, é toda saudade. Se domina, é só malandragem. Se cansar, fica para mais tarde. Se pegar, engole vaidade. Se amar, é só felicidade.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Como quem ama...

Victor Rocha Nascimento

"Amor recíproco infeliz não existe. O único sofrimento de amor é não ser correspondido."
Existe amor que acaba? Amizade que vai e não volta? Existe o outro, ou amamos sozinhos? Amamos um outro ou apenas o que conseguimos ver nele? Se assim, o amor pode ser infinito e imutável, mas fatalmente deixaria a imagem numa desilusão.
E o tempo, será que pode tornar fraco um sentimento a ponto de chegar a ser desprezível? As condições e a convivência, ou falta dela, podem mudar o que por tempos foi eterno, foi perfeito e interminável? Pode haver confusão no amor? Pode haver certeza?
No fim, acho que só existimos nós mesmos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ode à Morena. Baralha mania inveterada

Victor Rocha Nascimento

Quando ela diz o que pensa, não sei se me esnoba ou se zomba de mim
Quando a Morena é presença, me invoca um distúrbio e me faz querubim
Quando se choca, nos choca, me chora e tem dó do seu fim
Quando me encara, me enrola, me vira a cachola, me prende em cetim

Quando é intensa é criança, troca doce ao amargo, me pisa firme
Quando sentença é cobrança, me suga suporte dobrado, me oprime
Quando é controle é casta, confunde sua casca e induz um crime
Quando me ama é carrasca, me fala e me rasga, me aponta num filme

Quando namora, me enforca, me aperta, me ama feito num sonho
Quando me troca, me joga, me afeta, me chama num timbre medonho
Quando é sincera, apaixona, dá medo e vergonha de um jeito enfadonho
Quando é moleca, traz gana, dá raiva e apanha, esconde o tamannho

Quando ela diz por que veio, me põe em rodeio e me traz aflição
Quando defende seus meios, corrompe o certeiro, me compra a razão
Quando me agarra, me safa, me caça, tortura por confusão
Quando me conta, me erra, se ferra, me atinge. Já é escravidão

Quando não quer ela manda, complica e desmanda, presume liberdade
Quando tem medo de si, se enforca por mim, e se entrega de verdade
Quando me pede, se enrola, não cobra mas eu cumpro a vontade
Quando mostra argumentos, nem são mandamentos, mas aí já é tarde

domingo, 23 de janeiro de 2011

A semente do termo

Victor Rocha Nascimento

Olha que agora, assim de susto, me alfineta uma vontade de escrever de ti.
Olha que a vontade é de ler sobre ti, de falar de ti e de partilhar uma folha e um texto.
Mal posso esperar para ver o que sai se te ponho pra escrever junto a mim.
A vontade que me deu é de misturar os pensamentos e embolar as letras, fundir ideias e a nós mesmos.
A vontade que me salta era de juntar nossos sorrisos, juntar nossa alegria, desse jeitinho assim. Queria te conhecer ainda mais, saber se me quebro e se completo bem os seus pensamentos, maus ou puros, perdidos... Sonharia em cantar sua poesia se escrevesse para mim. Sonharia em recitar sua alegria projetada em mim.
E num primeiro instante, logo após o romance, nasce um além que recorta o espaço, retarda o cansaço, maltrata as penas. Num amor completo embaralham rimas, se escreve cego, se dedica um futuro, compra briga com o incerto.
Se me escolhe, assim, como felizardo, para dividir um retrato, um diário, uma carta, um segredo, uma vida, só posso dar o máximo de mim. Serei leve, dedicado, breve, aplicado, complexo e rasteiro, prolixo e certeiro, mas só escrevo até o meio, abrindo mão de um fim.
Se é para um filme, um roteiro, sou ato, maltrato e me largo, me faço, relato, reviso, dirijo, critico, mudo, completo, crio o mundo do jeito certo para merecer sua história na ponta do lápis. Se der para um livro, me viro, me sirvo, me espremo, exponho, até tremo, numa obra mal feita, perfeita, inacabada, rasurada com o que pode haver de melhor em mim.
Olha que de agora em diante eu só quero escrever e ler e reler e saber de ti. Olha que de agora em diante eu peço que me escreva em mim.
A pessoa é sua e o tempo sempre. Me retalha, me suja, me rasga. Completa cada espaço da minha pele com tinta brasa. Reedita minha mente. Só escreve e me arranha. Me corteja, me tatua, me sangra, mas nunca sai. Abusa e me larga em migalhas.

Deixo eu o que quiser de mim.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Enquanto só, no recato de Sete Noites

Victor Rocha Nascimento

Rolo, enrolo, no calor em cama de frio mórbido, esperando a passagem da solidão enquanto me moldo, me afogo, contorço, reprovo, comporto.
Como que pelo mesmo motivo, uma carta que é escrita amor não deixa que saia o cheiro nem mesmo rasgada, cai flor, ainda que morta, renegada. Já chulo, abandonado, levo cheiro dela e olhar triste de quem só pode procurar na memória incerta.
E dos corpos colados, dedos cruzados, bocas forçadas, unhas fincadas e medos cravados, fica o sonho trincado e a noite inacabada.
Do mais íntimo e puro desejo, acordou de um sonho tão belo quanto viciante. Pensou logo em voltar, depois esteve triste por tê-lo perdido antes mesmo do beijo. Congelou o instante.
É de longe o amor, de perto sentido, tesão, recostado em afago me encontro zonzo, roído. No seu sorriso quase sinto, quase sou, quase brinco que nem sei. É êxtase, furor. Nos seus olhos fico em virtude, em apneia zombadoura, embreagado. O coração quase nem bate, quase explode, é rapioqueiro e lesado.
Quando olha assim, olhos cortados, sangrando. Olhos de pranto, de virtude, olhos perdidos, cerrados, eu quase acho que não é para mim.
Quando cobre o rosto e larga os cabelos, quando senta na grama e se aperta nas frestas, eu também sinto, mas por pouco acredito que é assim.
Quando corre os olhos, esconde a cara, cora as bochechas, franze o nariz e alarga o sorriso, apenas troço que seja de atrevo, vergonha de cruzar a vista na minha. Seria sonho ou loucura pensar que sim.
Pode ser medo. Natural, se pode ser amor. Sinto provável que se percam os olhos, sobre tudo os meus, se cruzarem com os seus. É capaz de resultar num misto de choro e gozo.
Pode ser por nada. Motivo banal. Pode ser nojo, desprezo. Pode ser raiva, brincadeira. Pode ser outro. Pode ser que não seja. Coisa da minha cabeça.
É de incentivo que me ergo, alimenta meu vício.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Bonum Novum

Victor Rocha Nascimento

Antes do instante aclamado e mitificado os sonhos eram perfeitos como se devem os sonhos. A alegria e o tremor eram esperados e avassaladores. Tudo poderia funcionar, e só. Poderia ser simples pois era onde se encaixava o perfeito. Mas o complexo veio se meter na obra acabada. O sonho foi apunhalado pela realidade, que é inveja pela incapacidade de ser.
Quando passou a noite, e a aurora se fez clara-cega, me cortou um suspiro no peito. A solidão me afoga no próprio que sou, que me faço e que deixo escapar.
Quando num canto a festa parecia tortura, me restava continuar sonhar e dentro de mim tudo parecia mais aceitável, mais belo. Mas o sonho deveria ser eterno. Perdi os sentidos e os amores. Perdi o gosto, o gozo, a voz.
Cheio de esperança vã, entendi que era mais uma noite para esquecer, para deixar de existir. Cheio de mim mesmo e na falta de todo o resto, não sabia como me consolar. Sentia o rosto molhado não sei se por choro ou por ter os olhos esbugalhados para a luz e o vento. Sentia um nó na garganta e no peito e a certeza de ter obtido o incurável.
Agora, por amor e por sentir o inevitável do tempo, supero como quem perde um fim. Me embaraço na falta que se deva a quem esquece para suportar a perda. Fico com a falta. Com a verdade cômoda e incômoda que me coube fixar. Nada aconteceu. Eu ainda estou esperando.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Daltonismo Amoroso

Victor Rocha Nascimento

O que faz um desgraçado romântico quando descobre que o amor não existe? Quem estuda a natureza humana excessivamente acaba fragmentado na realidade absurda do mais puro e físico das coisas. Quem conhece bem uma árvore passa a se questionar sobre os motivos e fundamentos do amor.
Me perguntava sobre o que era esse sentimento terrível que me incomodava agora por faltar e tentava entendê-lo da forma mais mecânica possível. Não havia dúvidas de que era um mito, uma invenção do homem... Mas que fosse o mais útil, belo e honroso dos mitos também.
Perdido, parei de me perguntar e tornei a preocupação pública. Daí ela me respondeu, mesmo a par da complexidade real da minha aflição:
- O problema é que a intensidade que as vezes a gente busca não é a mesma que a gente espera (recebe?)... é como uma escala de cores!
- Se por isso, meu amor é tipo um Flicts.
- Flicts?
- Sim. Do Ziraldo. "Flicts é uma cor de que ninguém gosta, ninguém lê, da qual ninguém lembra", mas no final, de forma completamente irônica, a Lua é Flicts.
- Ah! É verdade. Já me lembrei.
- Você sabe o que a Lua representa pra mim, apesar de tudo...
- Será que então você sofre daltonismo amoroso?

A conclusão me pareceu tão fantástica que preferi acreditar que sim. Ainda não tenho respostas exatas para o que é o amor e muito menos sobre o meu papel com ele. Tento curtir da maneira mais pura e só. Depois de tantos procurarem definir das formas mais intensas e criativas, eu não deveria me atrever, mas faço por uma inquietude própria, faceira. Talvez isso seja parte do que definem como estar amando.
Se mito do homem ou graça de Deus, não importa tanto. De uma maneira ou de outra, estou seguro e satisfeito nessa constante utopia comum, que consegue ser tão física quanto ilusória, encantando qualquer alma cética.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Na espera fracionada o inevitável encharcado.

Victor Rocha Nascimento

Quando chegou em casa, passou primeiro pelo cheiro. Já envenenado de odor, tomou ciência de que ela estava no quarto como quem espera pelo dono para se divertir.
Dobrou as bainhas da calça enquanto também dobrava os minutos para ampliar a aflição da espera. Fazia tempo que não se viam ou pelo menos aparentava fazer. Ele ajeitava a blusa já molhado em emoção, mas sem deixar escapar um suspiro que fosse notável. A indiferença fazia parte da sua sedução. Ela também sabia esperar, ainda que de mãos suadas e unhas roídas, sem fazer barulho.

Cadenciando o desejo, ele aproveitava os segundos de dor. Ela angustiava com o coração espetado no ponteiro. Munido de opções, optava por não ser austero ao menos dessa vez e fazer do encontro uma piada doce. Ela, perdida da mente e corpo do rapaz, sonhava em se lambuzar do que lhe faltava. Era amargo enquanto não lhe vinha. Era quente. Já fervia.

Caminhava ele pela casa, sem os sapatos, escorrendo pelo piso frio, para fazer evidente sua presença. Ela mordia os panos da cama como se os ruídos dele fossem dias. Dava voltas e evitava, ainda que preocupado em incomodar. Contornava tapetes e chinelos. Ela era quente por natureza e o chão gelado contrastava com seu calor. Ele sabia. Hesitando, abriu a guarda antes do marcado.

Os olhos travaram e já era tempo. Ele, decidido em esbanjar a espera num próximo instante glorioso, entendeu que ainda valeria mais esperar. Ela, torturada pelo incerto, se jogou sobre seus ombros estalados e arranhou seus peitos como quem cava segurança. Estava certa de tudo e desfilava na falta do que não tinha julgo. Ele protelava no poder do artigo. Dominava meio que sem saber como.

As mãos se tocavam de leve e os corpos rosnavam ritmados um no outro. Pescoço torto, boca larga, pele macia e vapor nos olhos. O cheiro, o medo, a falta, o desejo e o carinho emplacavam em fraternidade. Os corpos se conheciam, tremiam, ansiavam e a mente firme forçava a espera. Quanto mais se fazia demorar, o sabor regozijava quieto por sugar. Mas o tesão virava raiva, o carinho descontrole e o certo atordoava.

Corpos colados, mãos firmadas, e cobranças verbalizadas. A espera só é boa quando saboreada mutuamente. Ela não entendia, implorava, contornava, redimia, estapeava... Ele sabia que iria dar merda. Melhor acabar com o sofrimento e cortar de vez a brincadeira que se revelara paralela. De corpos colados, beijados, ele finalmente cedeu, de jeito tão suave que mal se podia ouvir. A resposta também foi em silencio, só para casar. Assim finalmente terminavam o que na verdade tinha início. Selados, tornavam-se mais e seguiam só os dois.

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Morena e o bufão

Victor Rocha Nascimento

Quem vê a Morena desfilando nas ondas de pedra, corre o risco de se apaixonar pelo que é puramente belo. De sedutor é viciante. Com o vento nos cabelos e na saia de pano, esbanja o dom de ser carioca e faz queixo de toda idade pousar no chão. De nariz em pé e rebolado de samba, a Morena tem noção exata do poder da sua natureza. É jovem, é forte, é moderna e decidida. Quando sorri é para atacar corações. Riso largo, definido, escroto e assassino. Riso certeiro, feroz, de quem sabe o que quer e conquista com olhar apertado. É graça de menina. É repleta uma mulher. É a boca perfeita que encaixa na orelha, na boca, no pescoço... É uma personagem, é uma lenda.

Quem vê o bufão deslocado pode imaginar que o garoto bobo do interior que se joga em cada canto, que deita nos becos e espera a barba crescer enquanto escreve frases sem futuro, está perdido em si e tentando descobrir o mundo. Um sonhador pós-moderno que se força a sobreviver mesmo sem espaço para respirar. É quase um escarro da cidade grande. Muda, procura, culpa. Pela displicência e falta de amor próprio, pode até fascinar. Pelo gosto estranho, amigos confusos e metodismo aflorado, chama a atenção. É quase uma personagem. É quase, é nada. Vem atrás de sabe-se lá o que. É ínfimo, meijengro, medonho, escroto, enferrujado. Nas ruas assassino culto, acuado, misterioso. No quarto é poeta romântico.

Entre dedos grafados e luz de três cores, um encontro de vazio. Se aproximam na distancia circunstancial dos contatos repentinos. Ela como ela, sendo ela e só ela. Ele como ele, sendo ele e só ele. Não posso ver maiores dificuldades, maiores desavenças e destinos trocados. Não posso ver maiores diferenças. Ela viu diferente.

No tormento da ação de riscos, nos falece da ponta o mal que prevemos de início. Limpo de cataclismos, deveria apenas sentir e ser e fazer. Deveria ser livre de se e dos outros. Desorientado e predestinado, não é possível. Deveria, e só. Não cabe ao homem formar nem escolher o coração que tem. Nada além de aceitar e tentar ponderar o óbvio e imutável.

No encontro em que cruzam olhos, bocas, corpos e signos, cruzam estrelas e o abençoar de morcegos na noite. Ritmos contestáveis foram mudando. A Morena do Rio quebra o paradigma de homem sério e sofrido do escritor renegado. Ele é o que reclama, condena, indefere, analisa, pondera razões. Ele é o frio que se apaixona, o louco que se condena. Perto da boca dela, ele não é nada. Já não é mais nada. Não existe o passado. Existe o bloco-do-prazer, o mandarim, o carmim.

Ah, Morena. Desse teu jeito de moleca, irritante e satírico, me perco ao inoculado temor das pernas. Não sei se te temo ou se a mim. Ah, Morena, não deveria ser assim. Por mais que te julgue mulher e que te veja em forma, nada mais que luz me toma. Ainda não vejo, não entendo, não te tenho. Queria fingir que pode ser tudo o que me parece. Queria te conter, me conter. Queria te contar, me poupar, engolir. Queria ter no olhar o que jamais entendi.

A Morena é o que é; e como morena, como carioca e como mulher, não se pode penetrar o tão fundo na mente quanto quereríamos pobres mortais. Ela só leva, protela, até gosta, se diverte e maneja. Ela quer futuro, quer emprego e quer o mundo. Mas morena também sonha, e por mais tortos que sejam os sonhos, sempre escorrem por um caminho que bifurca e reencontra, recose. Também é de sonhos que se faz a Morena, e de amor que quer viver.

E o que de novo pode em uma relação que já foi cantada em toda praça? A mim não importa e chuto que pensem eles o mesmo. Não importa quantas vezes o belo seja cantado, sempre soa suave, moderno. Sempre inveja e encanta. E que fim teria? Provavelmente o pior de todos, o mais sofrido, terrível. Mas como falar de fim se nem início existe? Nas relações ecoam sentidos difusos de certo e errado, sentidos de fim. Basta existir e o que é se sustenta.
Se existe um final, é a hora em que a gente ri.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O garoto de Sustos e Chocolates

Victor Rocha Nascimento

Meio sentado, deitado, jogado num canto da Novo Rio lotada de feriado prolongado. Uma mochila estourada em roupas, cadernos e filmes. Ele com um pacote de biscoitos baratos, um copo de caldo de cana, e um livro de capa mostarda que o prendia e salvava da multidão barulhenta.
Um tipo físico até que bem modesto. Não tão magro, mas pouco trabalhado e nada levado a sério. Talvez praticasse esportes periodicamente, mas nada além de um hobby e certamente nada de academia. O casaco surrado e a blusa larga ajudavam.
Ela fitava de longe, driblando os corpos soltos que desfilavam pelo salão de embarque com os olhos tímidos e molhados. Estava realmente fascinada, mas não tinha nem pista do motivo. Coisa alguma nele lembrava qualquer moda conhecida. Talvez um tipo meio anos 80, meio grunge e de rocker sujo, com um piercing gasto no sub-canto esquerdo da boca. Certamente não fazia seu tipo. Nem raspava de tangente no seu gosto por homens-garotos. Mas, alguma coisa de charme-descaso, algum tom sofrido e seguro... Algo que a perseguia e era seu oposto, fizeram vidrar. Era mais para uma sombra ou um espelho. Talvez nisso, ela tivesse a atenção roubada num susto forte.
O susto maior foi quando se esbarraram na entrada do ônibus. Culpa dele. Desastrado e de cabeça baixa no livro. E assim, entre esbarrões e sustos, também foi com o encontro nos assentos colados, 19 e 20.
"Um chocolate amargo com flocos grossos de café! Uma bela definição!". Era uma das várias manias dela. Talvez a mais constante. Marcava sempre seus sentimentos e sensações com comparações exóticas, que envolvessem cheiro, cor e sabor bem definidos.
Insegura, nervosa e com as mãos trêmulas, molhadas, lhe perguntou sobre o livro aos gaguejos. O Livro, que ainda travava a atenção do garoto, talvez tanto quanto a atenção dela era travada por ele.
Nada de mais. Sem grandes frutos. Ele comentou um pouco sobre o autor, e falou rápido sobre alguns assuntos um tanto complexos e confusos dos quais a obra tratava. Não se sabe se por sua velocidade, se pela complexidade ou se pelo encanto de ouvir da voz, ela não entendeu nada além de algumas palavras soltas. Só sabia, agora, emitir sons monossilábicos que serviriam satisfatoriamente para qualquer pergunta mesmo sem significar nada. Eram gemidos tímidos, na verdade. "Uhh", "Uhum", "Ahh"... Toda a empolgação do menino estava em suas próprias palavras, que traduziam o sumo do livro... Para ela, não sobrou quase nenhuma atenção. Por pouco nem cruzaram os olhos. Logo ele voltaria a ter sua existência roubada por completa pelas letras serifadas do mostarda.
O Susto, de verdade, veio depois de um silencio funerário tomar conta de todo o ônibus e ela já havia desistido de tentar criar qualquer relação com o enredador desconhecido. O sujeito, ainda em um clima 'mundo-encantado', sacou da bolsa volumosa uma barra de chocolates. Pelo cheio da mochila, era óbvio que a barra já estava amassada e quebrada quase toda. Pouco importante. A questão é que a danada era idêntica à idealizada pela menina. Chocolate amargo, flocos fartos de café.

Seria o cheiro em comunhão secreta com o inconsciente? Seria sorte pura, coincidência? Seria lance espiritual, exotérico, exótico? Destino? Seria? Será quer seria lógico? Seriam mais 4h de viagem. Pensar; dormir; sonhar; tentar; esquecer.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sombra e Chuva. O sonho para antes de amanhã.

Victor Rocha Nascimento

Como que por moda, num relance, um recorte, um romance, uma sorte, um momento perdido em voltar a sonhar. Desgraça é saber que, no fundo, se é.
Ela passa, só passa. Ela fica, só fica. Eu me banho em sua graça que se espalha no vento. Sou refugo, sou tormento, sou parte, sou resto. Sou público e ela o espetáculo. Sou amargo e ela o veneno.

Quem dera ter de perto esse sorriso
e que por sarro, cerrassem a mágoa e as dobras das mazelas.
E quando jeremiar a perdida doçura num castigo
Me descobrir refeito, enrolado nas suas canelas.

De receio se faz graça. Ainda que toque, que role, que rock, que choque, ainda que mais e que pouco me reste, é da graça do sonho e do sabor infantil de esperança que me nulo.
Desde o nascimento me tomou a fera, saqueou alma do corpo, me fez bobo, sereno, sonhador. Me fez preso, dependente de amor. Me fez homem, me fez gente.

Por certo despeito, o feito foi e eu teria lhe rendido
Para eterno desgosto, hoje me trombo
Sem ter, nem tentar, nem achar, me tornei cativo
Resta o sonho de choro doce e de encontro.

E aquela boca, aquela roupa, aquele cabelo, o sorriso no canto dos olhos. Aquele cheiro. Quem dera ser para mim. Que por instante, por defeito. Que por acaso, por brincadeira. Mesmo que fosse por outro caso, alguma besteira. Quem dera aquela voz no canto da orelha. E se um dia o sonho fosse sonho e de realidade despertasse outra vida, outra história. E se, em alguma verdade, desse para ser...

Ainda que minha dor seja dor de pouco valor
E que seja arrogante por amar minha própria mente
Espero em todo que possa ser em alguma
E que me surpreenda de meu pessimismo descrente.

Corpo na chuva, cadeia em vácuo. Já preso em rótulos, tomado por votos, gasto de mãos e cuspes devotos. Já sem esperanças, no sonho e nas lembranças está a felicidade, maior de todas as artes, que por pouco existe e se desfaz em tão pouco. Que é rouca e triste a própria. Que me engana por instinto, me faz seguir e tentar ser feliz, mesmo sozinho.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Argumento quebrado

Victor Rocha Nascimento

Deitado um banco duma praça, ou duma praia. A vida passa e eu fico. Eu duro, eu mergulho e sou eu mesmo. A vida fica e eu passo, como só.
Dormi essa noite com a santa. A santa encostada no meu peito. Incrível como que por milagre, mesmo pela manhã parecia santa. Ou é amor, ou dádiva, ou ação divina. Ou talvez seja tudo e seja tudo o mesmo. Ahh, era perfeita em tudo. Conseguia ser santa e pecadora por inteiro.
No final do segundo dia, já sabia que iria morrer.
O cheiro, o sangue, o beijo e a mão. São o que te define. São únicos. São fortes e puros. São graves e transbordam mitos e significados. Me marcaram.
A morte, o eterno, o instante e a escolha. A mortalidade do que se diz.
A normalidade do infeliz. O estado banal, natural do só.
Vento moleque, malandro, que arrasta os sonhos e os anos.
O tempo. E o que é?
O tempo. E serve, se serve, para que?
E o que é o tempo quando se existe?
E o que é o tempo depois de você?
Marcou, é eterno. É sempre e só é. Pobre do tempo que foi inventado para desgarrar, mas que é no fundo só um invento e de ferrugem morre junto com o homem. Mais dura o sonho, mais dura o desejo.
Quem ficou? Quem foi afinal? E quem morreu?
Não saberia dizer, também. Também não importa. Importante é o que foi, o que é e o que nasce no eterno para apodrecer impossível.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Nada mais. Quando se assassina um passado, renasce vazio.

Victor Rocha Nascimento

Esse povo já não tem mais alma
Deve ter perdido no caminho, talvez em algum barzinho, talvez sozinha num banco da praça, no jornal do gato, no remendo da saia da mulata.
Deve ter mesmo perdido, largado no descaso, de tanto preterindo, deixado de lado, soprando pro passado, desocupando espaço. Abrindo alas prum vazio de novidades imediatas, de enlatados sem graça, para ter tempo de engolir a mordaça e se fundir na massa.
O que era alma já é casa de traça, o que era identidade virou idealismo babaca, virou sonho em ressaca, criou cova e carapaça.
Esse povo sofrido hoje sofre sem raça, aceita murro na cara, fica mudo por nada, se acomodou com migalha. Se perdeu do próprio povo, da própria história, da memória e espera sentado, de cara pra tela, uma vida mais bela pra se recostar.
Aquela alma que era orgulho hoje é entulho que não serve pra nada. Aquilo que era o impulso das tropas hoje é chacota, é lorota ou está fora de moda, nem dá pra lembrar.
Quando se perde coisa importante, de valor inestimável, coisa louvável, laudável, de pura grandeza e notória pureza, há de se procurar. Refazer caminhos, lembrar das ideias, catar no ultimo lugar.
Ô povo, carente de coragem, que de tanto apanhar já perdeu a vaidade e se limita a respirar. Ô povo da impunidade, da verdade covarde, que lamenta a vida e se perde na triagem sem ter onde chegar.
Nada melhor do que voltar a ser qualquer coisa pra ter motivo, besta que for, pra voltar a sonhar. Pra voltar a marchar. Pra voltar a acreditar. Pra voltar a lutar. Pra voltar.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Por ser divíno. Do mesmo coadunado , o outro indivisível e unitário.

Victor Rocha Nascimento

Era assim que eu vinha
Como um doente viciado em coçar feridas
Como uma benção de mãos suadas
Como uma peste de olhos pregados
Como uma criança que não aprendeu a berrar
Era assim que ela chorava
Como quem, com a dor, encontra alegria
Como quem faz música aos surdos
Como quem se desespera por companhia
Como mulher que renasce num altar

Com minha chegada, atenta porém apressada, calada porém sedenta, ela resistiu, valente, ao sal dos olhos. Com sua dor inevitável, se desfez. Rasgou a alma em duas e me cobriu do frio da falta.
Por mais que fosse dela a dor que nos criou, era minha a doença e seu amor restaurou. Fomos metades da mesma história, fomos retratos da mesma sala, entendemos a mesma dor, dividimos a estrada, passamos a ser outro. Nos transformamos em sentir, viramos existir.

Somos marcados, costurados, queridos, condensados, temidos, calados, sofridos e caçados. Somos ouvidos, vento, somos soprados. Somos amantes, amigos, somos presente, somos roubados. Somos família, somos nomeados, somos intriga. Seguimos ligados, mesmo operados.

Já que o tempo não termina, e nos maltrata com severidade, resolveu nos lançar à frente, como quem arremessa ao lixo, brinquedos velhos. O rancor dos ponteiros nos ameaçou, nos julgou aberração, e bem que tentou afrouxar do mundo. Nós, pobres um, e pobres existências, mudamos com velocidade imposta.
Mas nós, por sermos apenas um plural do nó de nossas vidas, continuamos sempre juntos. Ainda que o espaço trancasse longe nossos corpos, as almas se encontravam em outro plano, em outro espaço. Lá, onde estamos sempre juntinhos, e somos sempre sou.

Não são gêmeas tão pouco se completam. Apenas é e não são. Uma alma dividida entre duas cascas e unida em eternidade. Nos sentimos, nos vemos, nos tocamos, nos amamos, assim como somos, assim por sermos, assim, por ser o plural só metáfora escondida nos cantos onde nem as palavras e nem os enganos podem se enfiar.
No fim, que não há de existir, não há nem o que esperar ou reencontro que falte. Na verdade, ainda somos o mesmo e nunca saímos do nosso lugar.